
Me libertei de um amor obsessivo.
Fazer tudo pelo parceiro, esquecer dos próprios limites e transformar
a paixão em obsessão não é nada romântico.
Ao contrário, esse tipo de amor rima apenas com dor, destrói
a auto-estima e pode gerar uma dependência doentia. A seguir, mulheres
que amaram demais contam como se libertaram dessas relações
marcadas pela submissão.
Por Fanny Zygband.
Muitas mulheres caem na armadilha de depositar a chave da felicidade nas
mãos do parceiro, sem perceber que perderam o próprio eixo.
À primeira vista, elas estão apaixonadas e, na fase inicial,
é até natural ficar a mercê do parceiro. Mas, quando
a paixão vira vício, o amor sai de cena e dá lugar
à co-dependência. Assim como alguns precisam de álcool
para se sentir bem, outros são viciados em pessoas. Pensam 24 horas
por dia no parceiro e fazem tudo em função dele. Aí
a relação torna-se nociva, afirma o psicólogo
Vicente Galvão Parizi. Numa relação de co-dependência
a carência, a ansiedade e a angústia são intensas e
precisam ser totalmente supridas pelo outro. Por medo de perder o ser amado,
a pessoa se anula e abre mão de seus desejos, explica Sandra
Maia, autora do livro Eu faço tudo por você Histórias
e Relacionamentos Co-dependentes (Editora Celebris). Na raiz do problema
está a falta de auto-estima. A mulher precisa do outro para
se sentir amada, bonita, inteligente. Acha que o parceiro é uma dádiva
que não pode ser perdida, mesmo quando a relação é
insatisfatória, revela Parizi.
Embora intrincado, esse padrão de comportamento pode ser mudado.
O primeiro passo é reconhecer que isso não é amor,
mas um relacionamento no qual todos perdem, porque não há
parceria ou reciprocidade, características de uma relação
saudável. O segundo passo é buscar ajuda. Há grupos
de apoio e práticas que levam ao autoconhecimento. Trabalhos
corporais ajudam a retomar o próprio eixo emocional e manter os pés
no chão, diz Sandra.
A seguir, três mulheres contam como se enredaram e se libertaram de
amores obsessivos.
Deixei de ter ciúme doentio e de ser submissa Sofia*,
55 anos, gerente de loja. Eu tinha 22 anos e me apaixonei à
primeira vista por Antônio*, que era oficial da Marinha. Começamos
a namorar e, como viajava muito, ficávamos pouco tempo juntos, mas
trocavámos muitas cartas. Dois anos depois, nos casamos e ele foi
transferido para Recife. Lá, levávamos a vida que pedia Deus.
Meu marido era companheiro, viajávamos e nos divertíamos muito.
Depois de 7 anos, tínhamos dois filhos e éramos felizes, mas
o centro do meu mundo continuava a ser o meu marido. Tudo que eu fazia era
para ele. Me perfumava para ele, vivia comprando lingeries novas e me cuidava
a ponto de depilar as pernas todos os dias para que os pêlos não
o incomodassem. Pensava 24 horas por dia em diferentes maneiras de surpreendê-lo
e agradá-lo.
Tudo corria às mil maravilhas até que Antônio foi transferido
para Porto Alegre e nos mudamos de novo. A partir daí, sem razão
aparente, ele se transformou. Ficou infeliz, irritado, ríspido. Criticava
tudo que eu fazia e não perdia a chance de me depreciar na frente
dos outros. Como não queria perdê-lo de jeito nenhum, ouvia
tudo calada. Quando engravidei pela terceira vez, as coisas pioraram e ainda
tivemos de mudar para o Rio de Janeiro, onde eu não conhecia ninguém.
Antônio me deixava sozinha em casa a maior parte do tempo. Um dia,
ele disse que ia resolver negócios em São Paulo e saiu de
casa com uma mala. Quando chegou o cartão de crédito, vi que
Antonio tinha feito despesas no Rio nos dias da tal viagem. Pela primeira
vez, percebi que ele podia estar me traindo. Pensei que fosse enlouquecer.
Desesperada, comecei a procurar pistas. E não foi difícil
achar telefones de outras mulheres. Discutimos, mas não ousei dizer
que ele me traía, apenas perguntei. Ele negou e me deixou falando
sozinha. Por outro lado, quanto mais provas eu achava, mais tinha medo de
perder meu marido. Então parei de confrontá-lo. Claro, fingir
teve um preço alto, tive uma doença atrás da outra.
Um dia, estava na cama e sozinha em casa, quando tive um acesso de ciúmes.
Rasguei nossas cartas de amor. Colecionava todas como um tesouro: as minhas
amarradas com um laço rosa, as dele com um laço azul. Mas,
logo em seguida, arrependida, colei os pedacinhos. Não suportava
o fim do sonho romântico.
Em 89, nos mudamos para São Paulo. Antônio começou a
jogar compulsivamente, e chegava em casa muito nervoso e agressivo. Nessa
época,m fui com uma amiga a um grupo de apoio a familiares de alcoólatras.
Aquele não era o meu problema, mas fiquei chocada quando me reconheci
nas histórias que ouvia ali. Como eu, muitas mulheres se anulavam
para evitar o confronto e viviam em função de quem as feria.
Pela primeira vez, admiti que meu casamento não ia bem e que não
podia mais abrir mão dos meus desejos só para não incomodar
meu marido. Senti ao mesmo tempo, o coração partido e um grande
alívio porque havia uma saída. Comecei a ver filmes e a ler
tudo sobre a compulsão pelo jogo e, principalmente sobre os relacionamentos
co-dependentes, como o meu. Concluí que, em vez de reformar meu marido,
precisa consertar a mim mesma. Deixei de olhar só para Antônio,
fui fazer cursos profissionalizantes e me preparei para deixar o casamento,
que já durava quase 30 anos. Passei a enfrentar meu marido e a não
aceitar as ausências, as críticas e as traições.
Esperava que ele tivesse reações agressivas, mas só
me ameaçava: Se me deixar, não vai levar um tostão.
A pressão foi aumentando, tivemos uma briga terrível e saí
de casa sem olhar para trás sem emprego, sem dinheiro, mas
com a certeza de que era o que eu precisava para manter minha saúde
física e mental.
Como tinha feito aqueles cursos, arrumei um emprego e dei uma virada na
minha vida. Hoje, dois anos depois, já superei a dor e as dificuldades
financeiras e vivo bem, trabalhando como gerente de uma loja. Tenho um companheiro
para ir a festas e compartilhar bons momentos, mas casamento nunca mais.
Quero continuar caminhando só com minhas próprias pernas.
Achei que dava azar com homens, mas não era só isso. Ana*, 41 anos, publicitária. Não tenho sorte com homens. Essa era a minha justificativa quando me envolvia com pessoas complicadas. Até me dar conta de que isso não era obra do acaso, mas um padrão que se repetia na minha vida. Foi assim com o Alex*. Ele era músico, dez anos mais velho do que eu e bebia. Era o segundo homem na minha história com esse perfil o primeiro foi o pai da minha filha, que tinha cinco anos quando comecei a namorar Alex. Apesar de nossa relação ser instável, com muitas idas e vindas, em 92, engravidei. Alex não se opôs, mas não foi carinhoso. De fato, a gravidez aumentou meu desejo de casar e armei tudo para isso. Aluguei e mobiliei um apartamento....
Exagerada, jogada a seus pés. Alguns sentimentos e atitudes, quando
vêm a tona com freqüência e com muita intensidade, revelam
que o amor pode estar se transformando em uma obsessão.
Veja a lista, baseada na orientação do CODA, grupo de Co-Dependentes
Anônimos:
Sentir-se completamente responsável por outra pessoa, pelos
seus sentimentos, pensamentos, necessidades, ações, escolhas,
vontades, bem-estar e destino.
Sentir ansiedade, pena e culpa quando as pessoas amadas têm
problemas.
Sempre querer agradar aos outros em vez de agradar a si mesma.
Buscar desesperadamente amor e aprovação.
Tolerar abusos e não expressar suas emoções
para não perder o amor de outras pessoas.
Ignorar seus problemas, desejos e necessidades ou fingir que as circunstâncias
não são tão ruins.
Acreditar que alguém não pode viver sem você.
Tentar controlar eventos, situações e pessoas por meio
da culpa, coação, ameaça, manipulação
e conselhos assegurando que as coisas aconteçam como você quer.
Sentir que precisa fazer muitas coisas para ser aceito e amado pelos
outros.
Dizer sim quando quer dizer não.
Caso se identifique com a maioria dos itens, é aconselhável
procurar um terapeuta ou um grupo de apoio.
Na hora de procurar ajuda
Freqüentar grupos de apoio, que garantem anonimato e têm atendimento
gratuito, é um dos caminhos mais eficazes para quem quer transformar
seus padrões de relacionamento. Nesse trabalho as pessoas compartilham
suas experiências e apóiam-se mutuamente.
Abaixo, os sites dos principais grupos em todo o Brasil:
Co-dependentes Anônimos CODA www.codabrasil.org
Mulheres que Amam Demais MADA www.grupomada.com.br
Emocionais Anônimos www.ajudaemocional.com.br
Introvertidos Anônimos www.introvertidosanonimos.org.br
*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.
O livro surgiu da sua história pessoal?
Alguns relacionamentos meus tiveram um fim muito parecido com os descritos no livro. Foram muito desgastantes, e eu sempre acabava sozinha. Percebi que o meu padrão de comportamento era dar demais, colocar todo o foco na pessoa. Eu não era importante e só estava bem se ele estava bem.
Isso aconteceu em todos os relacionamentos?
Desde a adolescência. Hoje consigo olhar para trás e ver o fio que liga todos eles. A linha que separa o amar demais para o amar normal é muito tênue.
Como conseguiu perceber e mudar?
No final de 2002, quando acabou uma relação de forma muito dolorida, percebi que estava num círculo vicioso. Quis entender o que estava acontecendo. Desde então, tenho feito muita terapia e lido muito.
Por que colocou tudo num livro?
Serviu para organizar o meu processo de transformação. E também tinha vontade de compartilhar com as pessoas esse tema tão pouco discutido. Acham que amar demais é ser louco, agressivo, matar. Não é. É colocar o foco no outro.
A síndrome é mais comum nas mulheres?
Não. Está ligada a problemas de infância, de auto-estima. Acho que as mulheres só expõem mais.
Se você é uma daquelas pessoas que ama e acaba encontrando dificuldades em estabelecer uma relação saudável sem abrir mão do amor incondicional, você não está sozinha.
Segundo a escritora Sandra Maia, que acaba de lançar pela editora Rideel "Você está disponível?” - Um caminho para o amor pleno", o fenômeno é mais comum do que se pensa. O livro, de auto-ajuda, apresenta propostas para o equilíbrio emocional através de relatos pessoais de quem encontrou o caminho da auto-estima perdido com relacionamentos co-dependentes, sem buscar vítimas ou culpados, segundo sua autora. Nesse percurso, diz Sandra Maia, é possível iniciar o caminho para deixar de amar demais e depender do ser amado, focando as energias em si próprio.
A autora acredita que é possível "fazer tudo pelo outro" sem se corromper e nem maltratar a si mesmo.
"O problema não é amar demais, mas fazer muito sempre esperando mais em troca", afirma ela. Em seus relacionamentos passados, confessa Sandra, ela costumava "ir para o outro e perder seu próprio endereço".
O livro fala da forma como nos relacionamos conosco, nossas escolhas, crenças e sonhos. Sandra Maia se propõe a abrir para o leitor uma reflexão sobre relacionamentos e responder se estamos ou não disposníveis para uma relação segura, saudável e correta quanto a forma de amar.
O LIBERAL, Belém, PA, 12/12/04
Editoria Mulher, pág. 03
Acesse a página 02.
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